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Diversidade não é apenas uma questão social, mas também um desafio cognitivo.

Observa-se o esforço tanto de empresas como setores organizados em estabelecer metodologias e critérios de inclusão no firme propósito de buscar uma sociedade mais igualitária. A preocupação de balancear a organização social de uma empresa, tendo em suas diferentes posições profissionais pertencentes às chamadas ‘minorias’ (algumas que totalizam um percentual significativo da sociedade brasileira) é uma preocupação ativa. Inclusive, em grandes empresas, é comum ver em suas estruturas, cargos responsáveis por cuidar deste balanceamento de oportunidades. Esta condição leva a uma visão puramente demográfica do problema. Dessa maneira questiona, por exemplo, quantas mulheres existem em cargos de liderança?”, qual a distribuição de negros em relação a população total da empresa?”, como trans são incluídos nos processos seletivos?”, o quanto estão reservadas oportunidades para respeitar a diversidade?”, entre outras questões... Tudo isso é muito importante e mostra a evolução da sociedade. Mas será que é o suficiente? Digo que não. Será que estas ações impedem aqueles comentários maldosos no café sobre o novo chefe bichinha ou o neguinho” que assumiu recentemente a gerência de um dos departamentos? 

Veja que inclusão não é ser convidado para a festa, mas é ser aceito na mesa (frase que ouvi em algum momento e sinto não lembrar a sua autoria…peço escusas pela apropriação). Portanto, é mais do que uma questão social, é um processo psicológico de desconstrução de intolerâncias e agressividades. Quero te convidar a refletir: será que um quadro funcional demograficamente igualitário reflete a ausência de processos psicológicos aversivos a estas minorias? Ainda que não manifestos estes preconceitos, será que este estado dormente pode não aflorar repentinamente e, quando o fizer, provocar atritos e ofensas, descontruindo os esforços inclusivos de uma organização? 

Se você chegou a este parágrafo, deve estar se perguntando: ok, mas qual a proposta? Se pensarmos que o processo de inclusão social é mais cognitivo do que social, a neurociência pode ajudar muito nesse processo. Como? Simples: vamos admitir que neuro = cérebro e ciência = medidas, portanto, medidas relativas ao cérebro. A psicologia cognitiva pode ser uma boa aliada no processo de diagnóstico destes preconceitos latentes. Não que a neurociência venha a oferecer uma solução (hoje parece que está na moda dizer que neuroalgumacoisa é a resposta!!). Mas ela certamente consegue apontar uma descrição mais profunda das disposições mentais de um grupo, através de um parâmetro métrico e científico. Greenwald e colaboradores (1998) desenvolveram uma avaliação chamada de Teste de Associação Implícita (TAI), que identifica associações subjacentes e que escapam ao nível de consciência dos indivíduos. O conceito de cognição implícita e explícita está bem estruturado dentro da psicologia cognitiva. Este teste se mostrou efetivo para identificar atitudes de preconceito racial tácito (https://www.projectimplicit.net/). Muitos indivíduos que o realizaram, não tinham plena ciência de que possuíam, em alguma medida, traços de discriminação racial.  O grande mérito do TAI é utilizar processos associativos, como um jogo, onde as pessoas procuram responder o mais rápido possível. Composto por respostas certas e erradas, a lógica do teste é identificar com que velocidade os indivíduos fornecem respostas às associações propostas. Quanto mais rápida a resposta, mais forte a associação.  

Este protocolo experimental ganhou várias versões, como o FAST e IRAP (Implicit Relational Assessment Procedure), além de variações proprietárias possibilitam utilizar este tipo de teste em diferentes campos do saber. Aqui no NENC utilizamos o TAI para identificar o territórios de marcas, posicionamento de produtos, atributos de fragrâncias, entre outros desafios. Entendo que está mais do que na hora de começar a estudar e a levar esta metodologia de diagnóstico de inclusão para o mundo corporativo. Me pergunto: será que uma empresa que se considera inclusiva, resistiria a uma avaliação implícita utilizando este recurso  

Este pequeno texto teve como propósito fazer uma provocação científica dos caminhos que podem percorrer os esforços de inclusão.  Talvez mais do que a sociologia e a antropologia, a neurociência e a psicologia cognitiva podem instrumentalizar as empresas para compreender melhor a profundidade com que as minorias são integradas de fato ao corpo social da empresa, tornando os esforços de inclusão muito mais sólidos e coerentes.   


Referências 
GREENWALD, Anthony G.; MCGHEE, Debbie E.; SCHWARTZ, Jordan LK. Measuring individual differences in implicit cognition: the implicit association test. Journal of personality and social psychology, v. 74, n. 6, p. 1464, 1998.
Project Implicit, 1998. Disponível em: <https://www.projectimplicit.net/>. Acesso em: 29 de abril de 2021. 

Viéses cognitivos: Como manter a irracionalidade sob controle?

Um viés cognitivo é uma distorção sistemática do pensamento que ocorre durante o processamento e interpretação de informações. Os vieses cognitivos afetaas decisões e julgamentos que fazemos.  

O cérebro humano é um poderoso processador de informações, mas sujeito a limitações. Os vieses cognitivos geralmente resultam da tentativa do cérebro de simplificar o processamento de informações, uma vez que a capacidade de processamento e o tempo disponível são escassos. Ideias preconcebida sobre o mundo ou estilos cognitivos funcionam como regras básicas que nos ajudam a entender o mundo e a tomar decisões com relativa rapidez.  

Alguns vieses cognitivos estão relacionados à memória. A maneira como nos lembramos de um evento ou estímulo pode ser tendenciosa por uma série de razões e isso, por sua vez, pode levar a um pensamento e tomada de decisão tendenciosos. 

Outros vieses cognitivos são relacionados à atenção. Visto que a atenção, assim como todas as funções cognitivas, é um recurso limitado, as pessoas precisam ser seletivas sobre o que prestam atenção no mundo ao seu redor. Por causa disso, tendências sutis podem influenciar a maneira como interpretamos o mundo. 

O conceito de viés cognitivo foi introduzido pelos pesquisadores Amos Tversky e Daniel Kahneman em 1972. Desde então, os pesquisadores descreveram vários tipos diferentes de vieses que afetam a tomada de decisão em uma ampla gama de áreas, incluindo comportamento social, cognição, economia comportamental, educação, gestão, saúde, negócios, finanças e comportamento de consumo. 

Todos os seres humanos possuem vieses cognitivos. Pode ser mais fácil perceber nos outros, mas é importante saber que é algo que também afeta o seu pensamento. Alguns sinais de que você pode ser influenciado por algum tipo de viés cognitivo incluem: 

 

  • Prestar atenção e dar crédito somente a informações que confirmem suas opiniões 

  • Culpar fatores externos quando as coisas não acontecem do seu jeito 

  • Atribuir o sucesso de outras pessoas à sorte, mas levar o crédito pessoal por suas próprias realizações 

  • Supor que todas as pessoas compartilham das suas opiniões ou crenças 

  • Aprender um pouco sobre um tópico e, em seguida, assumir que você sabe tudo o que há para saber sobre ele 

 

Quando fazemos julgamentos, tomamos decisões e construímos percepções sobre o mundo, gostamos de pensar que somos objetivos, lógicoe capazes de receber e avaliar todas as informações que estão disponíveis. No entanto, nossa capacidade de análise e processamento de informação é muito mais limitada do que conseguimos perceber ou admitir e isto pode levar a decisões erradas e julgamentos ruins 

Se tivéssemos que considerar serialmente todas as opções possíveis ao tomar uma decisão, demoraria muito para fazer até mesmo a escolha mais simples. Devido à enorme complexidade do mundo quase infinita quantidade de informações no ambiente, às vezes é necessário confiar em alguns atalhos mentais que permitem reduzir a complexidade a tal ponto que o cérebro seja capaz de processar e tomar uma decisão.  

Os vieses cognitivos podem ser causados ​​por uma série de fatores, mas em geral são esses atalhos mentais, conhecidos como heurísticas, que frequentemente desempenham um papel importante na sustentação dos vieses cognitivosTais heurística funcionam bem em boa parte do tempo, mas muitas vezes conduzem a distorções sistemáticas no pensamento.  Além das heurísticas, existem outros fatores que contribuem para a existência dos vieses cognitivos. Podemos citar as emoçõesas motivações individuais e as pressões sociais. 

Como explicitado anteriormente, os vieses cognitivos podem levar a distorções no pensamento. As crenças em teorias da conspiração, por exemplo, são frequentemente influenciadas por uma combinação de diferentes vieses cognitivos.  

O estudo dos vieses cognitivos é essencial para entendermos como construímos percepções e tomamos decisões, o que tem impacto em todas as áreas da atividade humana. 

No campo do comportamento do consumidor, conhecer as maneiras pelas quais o pensamento pode ser enviesado, é um passo fundamental para possibilitar o desenvolvimento de produtos e experiências sensoriais capazes de gerar interpretações positivas na mente dos consumidores e com isso facilitar a inserção bem-sucedida de um produto ou serviço no mercado.