Arquivo mensal maio 2020

COVID-19 e os valores implícitos face a pandemia.

É muito comum vermos notícias sobre a dificuldade de se obter índices ideais de resguardo da população. Em muitos locais a adesão ao distanciamento social está em níveis abaixo do recomendável. E não é raro identificar comportamento de risco com pessoas formando aglomerados humanos, ou até mesmo tentando levar uma vida  mais próxima do normal. Qual seria a origem deste comportamento? Realizamos um estudo de associação implícita utilizando  nossa plataforma on-line. O link do experimento foi divulgado em redes sociais. Neste estudo, procuramos identificar a percepção subjetiva das pessoas sobre o risco da vida social. No íntimo, há a crença real do risco que representa estarmos em grupo atualmente?

O teste de associação implícita é uma ferramenta criada na psicologia social projetada para detectar as atitudes inconscientes e não manifestas das pessoas. Greenwald Nosek, e Banaji (2003) construíram uma mecânica de avaliação fundamentada no tempo de respostas dos sujeitos. Este teste foi muito utilizado para medir assuntos delicados, como racismo.

É razoável pensar qual resposta teríamos se um pesquisador perguntasse diretamente: você é racista? Um estudo como esse estaria sujeito a vieses de enquadramento social ou até mesmo uma inconsciência do comportamento avaliado.  Através do teste de associação implícita, Greenwald e colegas conseguiram acessar de forma profunda as associações das pessoas tendo como componentes a apresentação de imagens pessoas brancas e negras, e atributos positivos e negativos. A partir de cálculos considerando o tempo do sujeito em fornecer as respostas nestas associações, é possível identificar a latência (o quanto demora para associar  um componente com um atributo). Quanto menor esta latência, maior a associação. Portanto, haveria algum traço de racismo quando os atributos negativos associados às imagens de pessoas negras tivessem um tempo de resposta significativamente menor do que os atributos negativos associados às imagens de pessoas brancas. Da mesma forma, qual resposta você imaginaria que um pesquisador teria se perguntasse em época de pandemia se é um risco continuar com uma vida social ativa?

Realizamos 209 entrevistas através da internet, utilizando nossa plataforma de teste de associação implícita. A amostra foi de 136 mulheres e 73 homens, de diferentes partes do país (não houve a preocupação de limitar geograficamente o estudo, pois possui uma abordagem). Vale reforçar que o resultado não possui uma representatividade estatística visto não haver um controle mais detalhado sobre a origem e o perfil da amostra. Os dados, contudo, oferecem indícios interessantes que podem ajudar a entender um pouco melhor as condições que vivemos hoje (últimos dias de Abril/2020).

Os componentes do teste foram imagens de pessoas sozinhas e em grupo e os atributos foram SAUDÁVEL (com palavras como  LIMPO, PROTEGIDO, ESTERILIZADO, IMUNE, HIGIÊNICO) e DOENTE (as palavras como CORONA VÍRUS, CONTÁGIO, FEBRE, TOSSE, FALTA DE AR). Os resultados demonstram que não há diferença estatística entre a associação SAUDÁVEL + SOZINHO e DOENTE + EM GRUPO  com a situação inversa. O que seria desejável em uma época como a que vivemos é que a associação SAUDÁVEL + SOZINHO e DOENTE + EM GRUPO tivesse uma latência menor do que SAUDÁVEL + EM GRUPO e DOENTE + SOZINHO. Em outras palavras, a primeira composição é mais desejada do que a segunda composição. Um gráfico semelhante foi obtido quando analisado exclusivamente para homens e mulheres, portanto, também não há diferença significativa entre sexos.

Repito que este não é um estudo que tenha validade inferencial, mas  é possível observar alguns indícios:

  • É muito provável que as pessoas ainda não absorverem subjetivamente o risco do convívio social e isso somente aconteça quando a doença começar a se aproximar cada vez mais dos círculos sociais das pessoas.
  • Caso estar em grupo é um risco, o estar sozinho não garante a imagem de saúde. O desgaste emocional que representa o isolamento não é saudável.  Desgastes emocionais fruto da rotina em um ambiente restrito pode trazer ônus psicológico às pessoas. Este risco pode estar muito mais próximo das pessoas do que o vírus. Quando esta relação se inverter, com a disseminação do vírus, muito provavelmente as associações implícitas também se inverterão.